domingo, 17 de abril de 2011

O Caçador de Borboletas


Vladimir recebeu muitas prendas no Natal, entre livros, discos, legos, jogos de computador, mas gostou sobretudo do equipamento para caçar borboletas. O equipamento incluía uma rede, um frasco de vidro, algodão, éter, uma caixa de madeira com o fundo de cortiça, e alfinetes coloridos. O pai explicou-lhe que a caixa servia para guardar as borboletas. Matam-se as borboletas com o éter, espetam-se na cortiça, de asas estacadas, e dessa forma, mesmo mortas, elas duram muito tempo. É assim que fazem os coleccionadores.

Aquilo deixou-o entusiasmado. Ele gostava de insectos mas não sabia que era possível coleccioná-los, como quem colecciona selos, conchas ou postais, talvez até trocar exemplares repetidos com os amigos.

Nessa mesma tarde saiu para caçar borboletas. Foi para o matagal junto ao rio, atrás de casa, um lugar onde se juntavam insectos de todo o tipo. Já tinha apanhado cinco borboletas, que guardara dentro do frasco de vidro, quando ouviu alguém cantar com uma voz de algodão doce – uma voz tão doce e tão macia que ele julgou que sonhava. Espreitou e viu uma linda borboleta, linda como um arco-íris, mas ainda mais colorida e luminosa. Sentiu o que deve sentir em momentos assim todo o caçador: sentiu que o ar lhe faltava, sentiu que as mãos lhe tremiam, sentiu uma espécie de alegria muito grande. Lançou a rede e viu a borboleta soltar-se num voo curto e depois debater-se, já presa, nas malhas de nylon. Passou-a para o frasco e ficou um longo momento a olhar para ela.

— Agora és minha — disse-lhe. — Toda a tua beleza me pertence.

A borboleta agitou as asas muito levemente e ele ouviu a mesma voz que há instantes o encantara:

— Isso não é possível — era a borboleta que falava. — Sabes como surgiram as borboletas? Foi há muito, muito tempo, na Índia. Vivia ali um homem sábio e bom, chamado Buda…

Vladimir esfregou os olhos:

— Meu Deus! Estou a sonhar?

A borboleta riu-se:

— Isso não tem importância. Ouve a minha história. Buda, o tal homem sábio e bom, achou que faltava alegria ao ar. Então colheu uma mão cheia de flores e lançou-as ao vento e disse: “Voem!” E foi assim que surgiram as primeiras borboletas. A beleza das borboletas é para ser vista no ar, entendes? É uma beleza para ser voada.

— Não! — disse Vladimir abanando a cabeça. — Eu sou um caçador de borboletas. As borboletas nascem, voam e morrem e, se não forem coleccionadores como eu, desaparecem para sempre.

A borboleta riu-se de novo (um riso calmo, como um regato correndo, não era um riso de troça):

— Estás enganado. Há certas coisas que não se podem guardar. Por exemplo, não podes guardar a luz do luar, ou a brisa perfumada de um pomar de macieiras. Não podes guardar as estrelas dentro de uma caixa. No entanto, podes coleccionar estrelas. Escolhe uma quando a noite chegar. Será tua. Mas deixa-a guardada na noite. É ali o lugar dela.

Vladimir começava a achar que ela tinha razão.

— Se eu te libertar agora — perguntou — tu serás minha?

A borboleta fechou e abriu as asas, iluminando o frasco com uma luz de todas as cores.

— Já sou tua — disse — e tu já és meu. Sabes? Eu colecciono caçadores de borboletas.

Vladimir regressou a casa alegre como um pássaro. O pai quis saber se ele tinha feito uma boa caçada. O menino mostrou-lhe com orgulho o frasco vazio:

— Muito boa — disse. — Estás a ver? Deixei fugir a borboleta mais bela do mundo.


sábado, 9 de abril de 2011

Expectativas


Quando depositamos muita confiança ou expectativas numa pessoa, o risco de
nos decepcionarmos é grande.

As pessoas não estão neste mundo para satisfazer as nossas expectativas, assim como não estamos aqui, para satisfazer as dela.

Temos que nos bastar... nos bastar sempre e quando procuramos estar com alguém, temos que nos consciencializar de que estamos juntos porque gostamos, porque queremos e nos sentimos bem, nunca por precisar de alguém.

As pessoas não se precisam,completam-se... não por serem metades, mas por serem inteiras, dispostas a dividir objectivos comuns, alegrias e vivências....

Com o tempo, vamos percebendo que para ser feliz com a outra pessoa,precisamos em primeiro lugar, não precisar dela. Perceber também que aquela pessoa que amamos (ou achamos que amamos) e que não quer nada connosco , definitivamente, não é o homem ou a mulher da nossa vida.

Nós aprendemos a gostar de nós, a cuidar de nós, e principalmente a gostar de quem gosta de nós...

No final das contas, vamos encontrar...
não quem estávamos procurando, mas quem estava procurando por nós....

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Cicatrizes


Quando amamos alguém, não perdemos só a cabeça, perdemos também o nosso coração. Ele salta para fora do peito e depois, quando volta, já não é o mesmo, é outro, com cicatrizes novas. Ás vezes volta maior, se o amor foi feliz; outras, regressa feito numa bola de trapos, é preciso reconstruí-lo com paciência, dedicação e muito amor-próprio. E outras vezes não volta. Fica do outro lado da vida, na vida de quem não quis ficar ao nosso lado.
Arrumamos aqueles que amamos no nosso coração e encontramos a paz sem esforço nem encenações fáceis que podemos dizer que tudo acabou, porque não podemos continuar amar aquilo que já não existe..

Vontade / Medo


A vontade é o avesso do medo. Só um ou outro comandam a vida. Quantas guerras não começaram por medo? Quantas batalhas não se venceram pela força da vontade?
A força da vontade é algo que conhecemos no nosso trabalho, no estrito cumprimento dos nossos deveres profissionais e familiares.
Onde está a nossa mais profunda vontade? Onde se escondem e como são os nossos desejos mais escondidos? O que queremos verdadeiramente para a nossa vida?


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Tirem-me da cruz...


Há quanto tempo eu estou ali especado
Parado, cansado- crucificado
Sem nada para dizer, ou fazer
Ou fazer-te perceber.
Os anos passam, trespassam
O teu olhar para mim- que não muda
E eu aqui mudo, sem dizer sim.
Não me ouves
E como não me ouves
Não me falas, não olhas
Não dás por mim.
Não me encontro contigo
Na discoteca
Não me cruzo contigo
Na tua vida
Na tua Meca.
Eu estou na cruz pregado
Parado, amaldiçoado
Pelo teu olhar rasgado
Sem dar por mim.
Gostava de poder ser teu amigo
Do peito, o que der jeito
Poder dar uma ajuda, aguda
Na tua vida.
Na tua luta.
Falar dos teus problemas
Sem esquemas
Com luz, apenas.
Podes iluminar, inspirar
Fazer a tua alma
Voltar acordar-para cantar.
Não há pior tristeza
Que não acreditar.
Pior, muito pior
Que a falta
De pão na mesa
Que a incerteza
É não ter luz.
Na luz, real beleza
A alma canta
O céu levanta
A mão acena
Sentes que vale a pena.
Faz-me um grande favor, amigo
Querido
Peito sentido
-Sair da cruz tem sido
O que me tem valido-
Fala-me de ti
Mesmo que não me ouças
A falar de mim
Ou de ti.
Vamos conversar
Mesmo que não seja para já
Que tu me irás ouvir.
Mas fala
Conta-me de ti
E acredita
Que eu posso-te ouvir.

E tira-me da cruz
Deixa-me ser luz
Na tua vida
E segue a tua vida
Sem a minha cruz

E um dia quando não estiveres
Á espera- quimera-
O teu peito vai-se abrir
E colorir.
Vais sentir o quente -
Do mundo- dentro de ti.
Vais sentir que a cena
Vale mesmo a pena
E vais sorrir.
E uma estrada branca
Um caminho
Vai-te seduzir.
E vais saber que já
Não estás sozinho
Eu estou aqui.
E vais sentir que o quente
No peito
Fui eu que pus
Porque eu sou luz.

JESUS

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Mão no ombro...


Há certas horas, em que não precisamos de um Amor...
Não precisamos da paixão desmedida...
Não queremos beijo na boca...
E nem corpos na maciez de uma cama...
Há certas horas, que só queremos a mão no ombro, o abraço apertado ou mesmo o estar ali, quietinho, ao lado...
Sem nada dizer...
Há certas horas, quando sentimos que estamos para chorar, que desejamos uma presença amiga, a ouvir-nos pacientemente, a brincar connosco , a fazer-nos sorrir...
Alguém que ria de nossas piadas sem graça...
Que ache nossas tristezas as maiores do mundo...
Que nos teça elogios sem fim...
E que apesar de todas essas mentiras úteis, nos seja dada uma sinceridade
inquestionável...
Que nos mande calar ou nos evite um gesto impensado...
Alguém que nos possa dizer:
Acho que estás errado, mas estou ao teu lado...

domingo, 2 de janeiro de 2011

Ao longo do meu caminho...


Depois de algum tempo aprendi a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E aprendi que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. Comecei a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. Acabei por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de uma criança e com a tristeza de um adulto. E aprendi a construir todas as estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em vão. Depois de algum tempo aprendi que o sol queima se me expuser a ele por muito tempo. Aprendi que não importa o quanto não me importa, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceito que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela pode ferir-me de vez em quando. Aprendi que falar não alivia dores emocionais. Descobri que se leva anos para construir a confiança e apenas segundos para destruí-la, e que poderei fazer coisas das quais me arrependerei para o resto da vida. Aprendi que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que tenho na vida, mas quem tenho na vida. E que bons amigos são a família que me permitiram escolher. Aprendi que não temos que mudar de amigos se compreendermos que os amigos mudam, percebi que o meu melhor amigo e eu podemos fazer qualquer coisa, ou nada, e termos bons momentos juntos. Descobri que as pessoas com quem eu mais me importo são tiradas da minha vida muito depressa. Descobri que devo sempre despedir-me das pessoas que amo com palavras amorosas porque pode ser a última vez que a vejo. Aprendi que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós. Comecei a aprender que não me devo comparar com os outros, mas com o melhor que posso ser. Descobri que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que se quer ser, e que o tempo é curto. Aprendi que, ou controlo os meus actos ou eles me controlarão e que ser inflexível nem sempre significa orgulhosa. Aprendi que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer enfrentando as consequências. Aprendi que paciência requer muita prática. Descobri que algumas vezes a pessoa que espero que me levante, quando caio, é uma das que me empurram. Aprendi que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tivemos e o que aprendemos com elas do que com quantos aniversários já comemoramos. Aprendi que quando estou com raiva tenho o direito de estar com raiva. Descobri que só porque alguém não me ama da forma que desejo, não significa que esse alguém não me ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso. Aprendi que nem sempre é suficiente perdoar, algumas vezes tens que aprender a esquecer. Aprendi que com a mesma severidade com que me julgam, poderão ser em algum momento condenados. Aprendi que não importa em quantos pedaços o meu coração foi partido, o mundo não parou para que conseguisse conserta-lo, antes de ser partido novamente. Aprendi que o tempo não é algo que possa voltar para trás. E aprendi que realmente consigo suportar mais...Que sou realmente forte, e que posso ir muito mais longe depois de pensar que não posso mais. E que realmente a vida teme que eu tenho valor diante da vida! As nossas dádivas são traidoras e fazem-nos perder o bem que poderia conquistar, se não fosse o medo de tentar...